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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Diário Reflexivo de uma professora

O que tenho sentido neste período de adaptação? 


Não posso falar do que não conheço, assim, hoje não conseguirei me exprimir de outra forma, a não ser escrever o que venho sentindo. 

Começo recorrendo ao nosso mestre Jean Piaget: “Não sou o que o meio fez de mim, sou o que fiz do que o meio fez de mim.”

Esta brilhante frase me faz refletir: O que fiz a cada novo obstáculo que a vida me apresentou? O que fiz com as perdas que sofri, com os sonhos que desejei, com as frustrações que presenciei, com a desvalorização profissional que a sociedade manifesta? Somos mais fortes depois das lutas.

Hoje me deparo fazendo o que sempre sonhei. Sou educadora de Berçário e me sinto honrada neste papel. Quando passo pela sala do Maternal e me deparo com as crianças que estiveram no Berçário no ano passado, pronunciando frases, com idades entre 1 ano e meio e 2 penso: “valeu a pena, aqui estão as sementinhas que plantei”. Isto alegra demasiadamente o meu coração, pois sei que o meu trabalho não foi em vão, e este é um mero detalhe de seus avanços.

Outro momento poético é ver as crianças do berçário socializando, buscando autonomia para as suas vidas, como se quisessem gritar: “Queremos ser livres!”

Contudo, alguns pais dizem que não querem isso para seus filhos... Vão até a escola e lá enxergam apenas o texto, sem entenderem o contexto. Mas me pergunto: Como avaliar uma escola? Como avaliar o trabalho de uma educadora em apenas uma semana (no caso da adaptação)? 

Neste tempo é quase impossível, afinal acredito na adaptação como processo, tanto para as educadoras quanto para os novos pais. Lembro-me perfeitamente de uma mãe dizendo que já estava partindo para o “plano b”, mas ela ousou confiar em deixar o seu filho e, hoje, sempre me deparo com ela, pelos corredores da escola esbanjando autonomia. 

Esta semana, tive um triste caso de adaptação, que após algumas ocorrências, a mãe desistiu de adaptar a criança e resolveu deixá-la com uma babá. Diante deste fato, tenho pensado nas perdas que esta criança terá, ou melhor, o que ela não experimentará? 

Provavelmente ela não saberá o gosto de se envolver em projetos e atividades planejadas, nem terá o prazer da interação com outras crianças da mesma faixa etária. A quem ela imitará? Com quem partilhará os seus brinquedos? Como lidará com o “não”? E ainda, haverá dificuldade em lidar com as frustrações, as quais são tão importantes para o seu desenvolvimento. Sabemos, que para a aprendizagem ter significado, a criança necessita da interação com o meio, ou seja, precisa ter o retorno de toda experiência vivenciada e não apenas o contato com um objeto.

Faço várias analogias, de mães que encontro no portão da escola, e que estavam tão ou mais angustiadas na adaptação de seus filhos, mas que souberam arriscar, dar um voto de confiança, e o mais importante - não se arrependeram, ao contrário, tecem elogios por encontrarem aqui, educadoras que acreditaram na autonomia de seus próprios filhos.

Mas repensando minha prática pedagógica, e este é o intuito deste texto, devo ter errado no momento em que abri sem medidas o meu campo de trabalho. 

Detalharei o caso para que meu leitor tenha total compreensão do que sucedeu.

Como de praxe, no primeiro dia de adaptação a mãe acompanhou a criança na sala do berçário, por uma hora, relatando como era a rotina de seu filho em casa. A criança por sua vez, não saiu de seus braços, por mais que eu me esforçasse para chamar a sua atenção.

Então, no segundo dia, logo que a mãe o entregou no portão, ele começou a chorar. A mãe foi orientada a aguardar um pouco até que eu o acalmasse. Rapidamente o acolhi e tirei-o da sala, levando-o para um ambiente tranquilo. Tentei colocá-lo ao chão para interagir com outros objetos, mas logo agarrou minhas pernas solicitando o colo. Dediquei-me a ele neste ambiente propondo várias possibilidades que nós, profissionais da educação conhecemos para acalmar a criança: chupeta, paninho de ninar, chocalho, músicas, histórias, danças, coelho de verdade, etc., mas naquele dia, nada adiantou. Voltei com ele ao berçário e dei-lhe um banho, pois naquela altura, ele e eu transpirávamos muito.

Ao entregá-lo todo cheiroso para a mãe, a criança já havia se acalmado. A mãe me perguntou como foi, e eu disse a verdade, que ele havia chorado, e só depois do banho consegui acalmá-lo. Eis que percebendo aquele coraçãozinho tão apertado daquela mãe, que perguntou se poderia entrar no dia seguinte, eu singelamente respondi que sim, e mais, entreguei um par de sapatilhas e disse a seguinte frase: “Fique à vontade para entrar no berçário quando desejar”.

Sinto que foi este o meu erro: misturar o campo de trabalho, com o campo afetivo. Devemos preservar nosso campo de trabalho, mesmo porque uma pessoa “de fora”, não tem um olhar pedagógico, e pouco compreende que é normal o bebê chorar, pois é a maneira pela qual ele se expressa, terá então, dificuldade em entender o ambiente escolar, e, a todo momento, fará comparações com a casa, se preocupando demasiadamente com os cuidados (o que também nos preocupa), mas diferente de uma educadora, enxergará sempre como uma mãe, podando muitas vezes, as oportunidades de crescimento daquele ser, afinal, por mais doce e tolerante que uma mãe se apresente, ela é sempre uma mãe, e é natural do instinto animal proteger a espécie, seu lado racional se coloca a favor da escola, seu lado sentimental coloca a criança de volta a seus braços.

Ninguém tem culpa nesta história, pois o desapego é a maior conquista dos seres humanos, então, o que diremos e faremos em relação aos nossos filhos?


Professora: Márcia R. M. Alves 
Grupo: Berçário 
04.03.12

sexta-feira, 9 de março de 2012

Chegando na escola...

“Soltar os filhos não é tarefa fácil para pais que educam com cuidado e atenção, mas essa é uma atitude necessária. O melhor é ir, passo a passo, transferindo a eles a responsabilidade de cuidar de si mesmos e, gradativamente, aumentar o nível de responsabilidade.” 
Rosely Sayão – psicóloga e consultora educacional 

Em educação infantil pode até parecer estranho falarmos em “soltar os filhos”, mas a questão do desenvolvimento gradativo da responsabilidade começa bem cedo. Quando falamos em autonomia, pensamos em permitir que a criança faça uso de seu potencial e de suas habilidades e se sinta orgulhosa por isso; confiamos que a criança é capaz de fazer certas coisas sem depender do auxílio de um adulto (a dependência oferece limitações). 

É nesse sentido que incentivamos a autonomia da criança na movimentação dentro da escola. Por ser uma conquista processual, leva tempo para que eles se habituem ao espaço, se acostumem com a rotina e conheçam bem as pessoas. Aos poucos, os alunos do Thema vão dominando o espaço da escola como se fosse sua segunda casa e circulam com segurança por ele. Eles conhecem onde ficam as salas, os banheiros, o refeitório e o parque. Eles sabem onde encontram os adultos de referência ou seus amigos, onde e com quem encontram acolhimento e o que devem fazer a seguir.
Ficar com a mamãe, o papai ou os avós é bom demais e nem sempre há vontade de falar tchau, mas portão à frente: que delícia é poder carregar sua própria mochila até os amigos, fazer o caminho rumo ao seu cantinho, encontrar as pessoas queridas na sua salinha e contar algo bacana, fazer a chamadinha e deixar sua marquinha, cantar músicas, aprender, brincar.

Para que nossas crianças sejam confiantes, precisamos confiar na capacidade delas.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Relatos de adaptação

Quem se habilitaria a contar um pouquinho sobre o processo de adaptação à escola de sua família em colaboração aos pais que estão passando por essa fase agora?

Aos novos pais no Thema também fica aberto o espaço para trocar ideias, tirar dúvidas, fazer perguntas...

* Aqueles que quiserem participar/contribuir, mas preferirem não se identificar, podem enviar seus “relatos” para o email themaconexao@gmail.com ou postar comentário anônimo aqui no nosso blog que replicaremos no face e no twitter com os devidos cuidados éticos.

Conheça mais sobre o projeto RELATOS clicando aqui!  

Espaço, tempo



“Se o espaço é a morada dos objetos, o tempo é a morada das ações. Se os objetos precisam de um espaço para estar, as ações precisam de um tempo para se realizar. (...) As ações compõe narrativas, ordens, sequências. Ou seja, primeiro o bebê mama, depois, arrota, depois isso, depois aquilo. Não é assim a narrativa do cuidado materno de alimentação do bebê? Na escola também, temos ordens, algumas lineares, outras simultâneas, e cada um desses pedaços de ação dura um tempo. Tempo do mamar. Tempo do plantar, colher, crescer. Cada coisa dura seu tempo (objetivo, subjetivo).”


Lino de Macedo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre a entrada da criança na escola

A decisão e a escolha da escola

A entrada da criança na escola é um momento marcante. Em primeiro lugar, é importante que a decisão de colocar a criança na escola seja tomada de maneira consciente levando em conta tanto as necessidades dos pais quanto as da criança.

Não há uma regra que defina exatamente o que é melhor, qual o momento certo: seria ultrapassado e injusto dizer apenas que os pequeninos tem vantagens com os cuidados “exclusivamente” maternos até os 2 anos de idade sem considerar o cansaço da mãe, sua carreira profissional e a colaboração que possa ter ou não nas atividades do dia a dia com seu filho em casa. Para muitas famílias, apenas uma dessas questões já pode ser decisiva para a busca de suporte profissional.
Por outro lado, a primeira infância é a fase de maior e mais rápido crescimento e desenvolvimento humano: constitui a base de sua formação (personalidade, valores etc.). Aos poucos (e bem cedo) as necessidades das crianças vão se ampliando: além dos cuidados com alimentação, sono e higiene, as crianças precisam de oportunidades para conhecer, explorar e aprender o complexo mundo: das coisas, das sensações, das relações humanas. Escolas de educação infantil são especializadas em administrar com responsabilidade cuidados, atenção e educação, oportunidades sociais e materiais para o desenvolvimento das crianças.
Considerando estas necessidades de pais e filhos e conhecendo e concordando com os recursos físicos, materiais e profissionais da escola escolhida, a filosofia e os valores da mesma, não há motivos para que os pais se sintam culpados pela decisão. Vale lembrar, que a escola jamais desligará ou substituirá o afeto que vincula a criança a sua família: a família é e sempre será a principal base e referência afetiva de todos, mesmo que por motivos adversos ocorram distanciamentos dentro dela.


O processo de adaptação


Cada criança é única e reage de maneira diferente ao novo ambiente, atividades e pessoas. O processo de adaptação costuma ser um momento de ansiedades e inseguranças para todos, afinal primeiro precisamos conhecer para depois confiar.

Em linhas gerais, os pais podem ajudar seus filhos neste momento:
- se preparando: conversando e conhecendo bem como a escola procede diante do processo de adaptação e auxiliando as pessoas envolvidas no conhecimento de seus filhos;
- transmitindo calma e segurança, procurando controlar suas emoções e atitudes;
- demonstrando compreensão, amor e paciência; procurando entender as emoções, o ritmo e o momento da criança.

Para saber mais, leia o texto "Entrada da Criança na Escola" de Maria Carmem Freire Diógenes Rego - Doutora em Educação pela UFRN.

A importância da rotina

Já pensou se todos os dias você tivesse que pensar qual caminho deveria fazer para ir trabalhar, em que momento pisar na embreagem do carro, engatar as marchas, frear etc. como se estivesse ainda aprendendo a dirigir? Se todos os dias fossem como os primeiros dias de anos escolares, em que você tivesse que decidir, além da roupa a vestir e o desjejum a consumir, em qual carteira se sentar e de qual colega novo se aproximar?
Poderia ser bastante tenso ou ao menos desgastante.

Nossa memória (dizendo de maneira “popular”, os conhecimentos já adquiridos) nos ajuda a “acostumar”, automatiza uma série de atividades dando espaço para que nossa mente possa apreender novas experiências.

As crianças além de terem os sentidos apurados para adquirir novos conhecimentos (elas são capazes de aprender muito mais coisas em um dia do que os adultos), tem um mundo inteiro para conhecer.

Por isso, uma certa rotina de atividades e horários é de suma importância para dar segurança, tranquilidade e autonomia às crianças, especialmente quando se trata do ambiente escolar, um lugar rico e variado de pessoas, coisas e acontecimentos.

Quando os pais e professores organizam os horários das crianças favorecem um bom relacionamento delas com o mundo.


Readaptando sempre que preciso

O ser humano é dinâmico, assim como sua sociedade. A cada coisa nova que aprendemos, mudamos e, às vezes, precisamos mudar o que está ao nosso redor. Vamos nos desenvolvendo entre estabilidades e mudanças.

Ao longo do ano, as crianças passam por experiências novas, tanto em casa quanto na escola: uma história que ouviu, um fato que viu, um novo lugar que conheceu, um colega novo que entrou na turma, um irmão caçula que vem chegando na família... Algumas delas podem mobilizar emoções relacionadas à insegurança.

Quando um novo ano escolar se inicia, então, são muitas novidades: professora nova, colegas novos, materiais e salas novos. Alguns podem ser motivadores, outros podem causar estranhamento, principalmente quando estava gostoso curtir, por exemplo, uma viagem em companhia dos queridos familiares... Ou seja, sentimentos e comportamentos novos em relação à escola podem aparecer. E, mais uma vez, é preciso procurar pacientemente entender o que se passa, conversar e transmitir segurança. E fazer isto em parceria com a escola, trocando ideias e informações será excelente para todos superarem, juntos, o momento.

Quanto mais a criança estiver habituada e afetivamente ligada ao ambiente escolar, mais naturalmente ela poderá encarar mudanças, novidades e medos.


Porque bebês menores se adaptam com mais facilidade à escola?

 
Estudiosos afirmam que ocorrem verdadeiras relações humanas desde o início da vida do bebê (ou ainda dentro do útero materno). Os bebês nascem com rico equipamento sensorial e já nas primeiras semanas de vida se orientam em direção às pessoas, acompanhando-as com os olhos e parando de chorar, por exemplo, quando veem um rosto humano.
Por volta do terceiro mês, o bebê passa a ter a capacidade de assinalar suas necessidades (apelar), como, por exemplo, chorar quando tem fome. O bebê explora e experimenta: ocorrem trocas constantes e interações com a mãe. Aos 5 meses é capaz de reconhecer sua mamadeira e aos 6 seleciona seu brinquedo favorito, já havendo também preferência por cuidadores (pessoas de contato habitual) em comparação com estranhos. Aqui ainda não há reação de rejeição aos estranhos e, por isto, até esta fase de desenvolvimento (a idade pode alterar conforme o bebê, mas o processo se desenvolve em padrões muito parecidos mesmo em diferentes culturas) é fácil inserir novos cuidadores, pois ainda não está definida por completo a percepção do “outro” separado do “eu”.
Por volta dos 7 ou 8 meses esta divisão se estabelece e o bebê começa a recusar ou rejeitar pessoas estranhas (ansiedade em relação a estranhos), visto que se vincula à mãe, que é “o outro” preferido dele – estabelece-se a primeira relação de afeto/amor. O bebê chora respondendo à ausência da mãe, porque sente falta dela mesmo com as necessidades satisfeitas.
Pode-se perceber diferenças individuais na formação de vínculos, tanto maternos, quanto com outras “figuras de apego” (estabelecidas até esta fase ou após ela). Ambientes familiares minimizam reações de medo a estranhos e mães responsivas (atentas às necessidades do bebê) favorecem a formação de uma base segura que permita ao bebê explorar e conhecer novos ambientes e retornar à figura de apego em situações de risco ou medo.

Bibliografia utilizada para a série “Sobre a entrada da criança na escola”:
BEE, Helen. O Ciclo Vital. Porto Alegre: Artmed, 1997.
_____ A Criança em Desenvolvimento. 7ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 1996.
BIAGGIO, Angela Maria. Psicologia do desenvolvimento. 19ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
CAMACHO, Suzy. Guia Prático dos pais. São Paulo: Paulinas, 2007.
CAPELATTO, Ivan. Diálogos sobre afetividade. Campinas: Papirus, 2007.
COLL, Cesar, MARQUESI, A. & PALACIOS, Jesus. Desenvolvimento Psicológico e educação, Psicologia Evolutiva. Volume 1. Porto Alegre: Artmed, 1995.
ELYSEU JUNIOR, S. Contribuições a uma Teoria de Personalidade. Campinas: Editora Alínea, 1996.
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KLAUS, Marshal H. & KENNEL, John H. Pais/bebê – a formação do apego. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
KLAUS, Marshal H., KENNEL, John H. & KLAUS, Phyllis H. Vínculo – Construindo as bases seguras para um apego seguro e para a independência. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
LOPES, Rita de Cássia Sobreira et al . Sentimentos maternos frente ao desenvolvimento da criança aos 12 meses: convivendo com as novas aquisições infantis. Psic.: Teor. e Pesq.,  Brasília,  v. 23,  n. 1, mar.  2007 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722007000100002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  25  jan.  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722007000100002.
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